As prendas do menino!

Um homem vem ao mundo e vai-se embora exactamente da mesma maneira:

– Gosta de maminhas, faz birra para comer e borra-se nas calças.

Quando nascemos é mais nas fraldas, mas qualquer pai que se preze gosta de ver a primeira prenda que o menino faz.

Abre-se a fralda e… Ena! Caquinha rala!

Acredito que não tenham sido os meus pais os primeiros a mudar-me a fralda, mas que a mudaram muitas vezes…

Aliás, tantas vezes que ao fim de uns tempos o pai babado diz:

– Porra, pá. O miudo deve estar podre.

Mas isto de fraldas é mais para as mulheres, que gostaram tanto delas que decidiram continuar a usá-las, mas numa versão menor, uma vez por mês.

Têm a minha solidariedade.

O primeiro beijo.

Acho que todos temos as nossas histórias sobre o primeiro beijo. A primeira vez, afinal de contas, é sempre um aventura. Decorria a minha fulgurante carreira de estudante da quarta classe, quando conheci a minha colega Sandra.

A Sandra foi, e afirmo-o com segurança, a única loira de olhos azul com que tive algum tipo de relacionamento afectuoso. Talvez venha daí a minha crença nas anedotas das loiras.

Mas a história é pouco complicada. Na primavera desse ano, e por viver no Algarve, como habitualmente passava os meus dias livres na praia, onde me encontrava às escondidas nas escadas laterais do restaurante da praia com a dita loira.

Trocámos juras de amor e inscrevemos os nossos votos com um pico na folha de um cacto que existia ali junto.

Os nossos encontros subiam de tom, o calor apertava, e o desejo mutuo por um beijo parecia aumentar. As cabeças aproximaram-se, os lábios tocaram-se mas logo se afastaram, como se um choque eléctrico os tivesse repelido.

Nesse dia afastámo-nos sem discutir o sucedido, mas continuámos as nossas actividades imperturbáveis. No nosso encontro seguinte, a loira cabecinha havia encontrado uma forma de aumentar a excitação. Como se a que eu sentia sem saber explicar bem não chegasse.

Sugeriu então que nos beijássemos debaixo de àgua para o podermos fazer de forma mais emocionante. Não sei se era esta a sua ideia de um beijo molhado ou se o filme “”Lagoa Azul”” a teria influenciado, mas acedi.

À primeira tentativa aquilo não correu lá muito bem. Ela engoliu um pirolito e ao vir a cima um onda fez o resto. As convulsões e tosses demoraram algo tempo, mas a rapariga recompôs-se.

Ora pareceu-me a mim então boa ideia utilizar os meus óculos de mergulho para lhe facilitar a tarefa.

Compreendem a impossibilidade de duas bocas se unirem num beijo quando uma delas está acompanhada de uma máscara de mergulho? Pois parece que nós não.

Mas as tentativas sucederam-se.

A nossa relação acabou dias mais tarde quando eu discordei dela numa questão relativa a um artigo do infame Jornal do Incrível, que afirmava que um rapaz de 8 anos tinha engravidado uma rapariga de 10. Parece que para a jovem, se estava escrito era verdade.

Na semana seguinte, quando voltei à praia onde passámos as nossas tardes juntos, a folha do cacto onde havíamos inscrito os nossos nomes havia sido selvaticamente agredida e cortada.

Disto tudo tirei duas lições para o resto da minha vida:

1º – A relações não se podem condimentar com o uso de objectos estranhos.
2º – As loiras burras nasceram assim e não há nada a fazer.

Dias de sofrimento

Todos nós tivemos os nossos dias de sofrimento.

Uns porque usámos aparelho, outros porque eramos pequenos, outros porque tivemos de usar óculos.

Eu fui benzido com duas de três. Não que o não ter aparelho me tenha salvo da chacota dos meus colegas, ou que os óculos os tivessem impedido de me usarem como saco de pancada.

Se acrescido disto se arranjar um mala de escola com o dobro do tamanho do proprietário, o cocktail é mortífero.

Como um jerico com carga a mais, a fuga pelos corredores do ciclo preparatório era uma empresa destinada a fracassar.

A salvação descobri-a após algumas cenas de maus tratos.

Quando dava comigo encurralado podia sempre usar a minha mala como malho de guerra, brandindo-a em circulos largos e varrendo os meus oponentes abrindo uma passagem para a salvação.

Não é que eles achassem muita graça, aliás as represálias foram sempre recheadas de episódios indignos do prime-time deste site.

Não levou muito tempo para que os agressores descobrissem que bastava uma mala para parar o impeto do meu engenho.

As vitórias técnicas estão sempre ditadas ao fracasso á posterirori.

Natal dos hospitais

O Natal é a quadra mais celebrada pela minha família. Não porque sejamos muito religiosos, que não somos. Fui baptizado e fiz a primeira comunhão, mas o padre depois de me dar a bolacha nunca mais me viu que aquilo sabia a bafio.

Na verdade somos ligados a um consumismozinho matreiro que alimentámos desde pequenos assistindo aos crescidos a jantar longas horas de bacalhau e azeite enquanto em prantos gritávamos em coro “”As prendas. As prendas.””

Nada que não tenha deixado mossa. E porque de mossa, a minha há-de ser num daqueles sítios que só os outros vêem, mas a dos meus irmãos é bem à vista do condutor, de preferência no capota.

Bateram ambos de frente na desorganização natalícia da família e recusam-se a compactuar com tal coisa, numa atitude de “”Quem não é por mim, é contra mim.”” e eu a habilitar-me a ficar sem prendas, pois que as deles, por mais insignificantes que fossem economicamente, eram as que sempre me tocavam mais.

Nada como uma boa confusão armada pela matriarca, para que os irmãos se deixem de falar. Não que eles tenham alguma razão para se chatearem comigo, mas a verdade é que dá mais trabalho chatearem-se com quem os pariu mas eles não escolheram.

A minha percepção é que chego a esta altura sempre com a alma hospitalizada. Seja com quem for, a culpa passa para mim, vá se lá saber porquê.

E lá fico à espera que passe a quadra da prendas para voltar à calmaria do meu lar. A vida é cheia destas coisas menores, mas na verdade é grande como mais nada.

Não sei se por as abarcar, se por ter um sentido sem sentido mas que não deixa de ser. E é com este pensamento da profundidade de uma poça de chuva que vos deixo, para um Feliz Natal e Feliz Ano Novo.

Faisão de capoeira.

Quero dizer-vos que ser criança é algo muito ingrato.

Não nos deixam fazer nada do que gostaríamos, porque temos de seguir ordens, apenas para nos apercebermos que quando já não as temos de seguir, não têm a mesma graça fazer o que dantes desejávamos.

Saibam que fui dos poucos rapazes da minha idade, que quando andava na escola primária, se podia vangloriar que havia comido o melhor arroz de faisão de capoeira da sua vida.

Aliás, o único. Aquilo era o arroz tostadinho em cima e o macio do bicho lá escondido dentro, já devidamente desossado e temperado. Assim que a travessa saíu do forno, a mesa atirou-se à iguaria sem vacilar. Mas voltemos atrás no tempo.

A minha mãe tinha-me entregue à guarda da prima da minha avó a quem eu carinhosamente chamava tia, pois que para mim todas as pessoas com rugas já tinham idade para ser tia. Levaram-me para a quinta deles, acima de Lisboa, onde me mostraram os lagares de azeite e os terrenos.

Com a minha tia e o meu tio, ía o filho deles que tinha mais uns dez anos que eu e se divertia a contar-me as histórias mais mirabolantes que brotavam da sua imaginação. Dava-me toda a sua atenção e explicava-me a cada passo a produção do azeite.

Na primeira noite fiquei ultrajado com o estado em que estava o interior do país, pois que, como me explicou, todas as pessoas da aldeia tinham de se deitar às nove horas, uma vez que o homem que tomava conta do gerador da aldeia o desligava a essa hora.

No dia seguinte e no dito almoço, já em casa de outros membros da família, foi-me explicado que os mesmos ganhavam a vida a criar o maravilhoso Faisão.

Naturalmente que a minha curiosidade de criança, manteve-me irrequieto o suficiente até encontrar as capoeiras, onde infelizmente apenas haviam patos na altura.

Digo-vos que só recentemente me apercebi da peta que me haviam pegado, tendo por isso ganho um ódio figadal ao dito prato.

Hoje não deixo de apreciar um dos momentos mais felizes da minha vida de adulto, precisamente quando me aproveito da mente ingénua dos mais pequenos da família enquanto lhes explico que para fazer uma página para a www é necessário implantar um chip especial na cabeça para a pessoa conseguir imaginar tudo antes de passar para o computador.

Mentir aos mais crédulos explicando-lhes as coisas num ponto de vista mais alucinado, é a melhor sensação que o mundo pode dar. Acho que só isso pode justificar o sorriso na cara dos políticos enquanto andam em campanha.